Os desafios da atenção domiciliar no Brasil

Boletim Abril 2016


Dados divulgados pelo Ministério da Saúde apontam que a expectativa de vida no Brasil aumentou 17,9%, entre 1980 e 2013, passando de 62,7 para 73,9 anos; um aumento real de 11,2 anos. Apensar desta constatação, um estudo realizado pela Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP revelou que os idosos estão vivendo mais, porém vivem mais tempo com doenças crônicas próprias dessa faixa de idade. Com isso, há uma longa permanência nos leitos dos hospitais causando a superlotação nas Unidades de Pronto Atendimento, internações prolongadas e reinternações.

A atenção domiciliar é oferecida como uma proposta de promoção de saúde, prevenção e cuidado multidisciplinar em um ambiente familiar e acolhedor. Mas, quais são os desafios deste tipo de atendimento?

Para responder questões relativas a este segmento, a Integral Saúde convidou a Dra. Maria Del Pilar, gerente médica da empresa Advance; Michela Merchan, que é gestora de promoção de saúde da Omint; e Viviane Mathias, gerente de assistência domiciliar e serviços médicos da Sul América Saúde. Cada uma destas profissionais mostrou suapercepção, do ponto de vista das empresas onde atuam, aliando às informações que caracterizam este mercado.

INTEGRAL SAÚDE: QUAL A PERCEPÇÃO DOS USUÁRIOS DO ATENDIMENTO DOMICILIAR, ACERCA DESSE SERVIÇO?

A Dra. Maria Del Pilar identificou dois tipos de usuários: “Os que entendem a importância da atenção domiciliar e a enxergam como vantagem ao usuário final; e a parte da população que vê como única vantagem uma possível economia para a operadora, sendo este o único intuito real quando o serviço é fornecido. Eles não veem como uma mudança de paradigma sobre cuidados de saúde”.

A gestora Michela Merchan considera que os usuários estejam confusos com relação ao serviço que lhes será oferecido em casa: “A percepção do usuário não está clara quanto à diferença entre os cuidados especiais - realizados por um cuidador contratado e treinado - e os cuidados especializados - fornecidos por uma empresa de home care -. Esta questão compromete o segmento, uma vez que o usuário não interpreta o serviço corretamente”.

Para Viviane Mathias os casos onde existem dificuldades de adaptação deste atendimento podem ter cunho cultural: “Identificamos alguns conflitos que estão relacionados a aspectos culturais, mais do que ao atendimento propriamente dito, uma vez que são pessoas diferentes e desconhecidas do ambiente familiar. E, sem dúvida, o índice de satisfação é muito positivo”.

INTEGRAL SAÚDE: QUANDO SE PENSA EM ATENÇÃO DOMICILIAR, A HOSPITALIZAÇÃO ASSOCIADA AO CUIDADO MÉDICO É UM PARADIGMA A SER VENCIDO?

Para a Dra. Maria Del Pilar a evolução já foi grande, no que diz respeito à aceitação por parte do médico assistente, corpo clínico e, inclusive, pelas instituições hospitalares sobre a desospitalização: “Flui muito melhor, principalmente porque houve importante melhoria na qualidade percebida dos serviços prestados, e na qualidade real dos mesmos, além da certeza de que o tratamento seguirá como instituído pela equipe responsável. Porém, acredito que hoje é um paradigma não ultrapassado, ou vencido, mas em vias de exaustão”.

Michela Merchan indicou a presença do médico com uma questão, ainda, muito marcante na assistência e pontuou a importância da equipe multidisciplinar no atendimento, de forma geral: “A atenção domiciliar ainda não venceu esse paradigma do trabalho de uma equipe multidisciplinar, onde cada um dos profissionais vai ter papel relevante. Mas, eu acho que nós avançamos muito em transpor a ideia de que “só o médico cuida e aplica terapêutica”. Ele pode até determinar, mas é uma equipe multi que faz isso. Ele, nesse momento, faz parte da equipe multi”.

Viviane Mathias: “Sem dúvida, o brasileiro, no geral, ainda entende que o cuidado médico, em suas diversas complexidades, deve ser realizado em hospitais. Viviane percebeu uma mudança neste paradigma: Mas, nitidamente, há um movimento em direção a formas alternativas de prestação de cuidados médicos. Incluindo a assistência domiciliar”.

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